11.9.11

se não mato a saudade, é 'deixa estar'.

A Saudade chegou mais uma vez sem avisar. Está ainda maior que da última vez que a vi. “Daqui a pouco não passa na porta”, brinquei, mas ela nem deu bola. Entrou num silêncio pesado e disse apenas que queria se sentar. Parecia cansada. Contou que vem fugindo de gente que quer matá-la. Tranquilizei-a dizendo que aqui ela está segura, já que não posso matar a saudade das pessoas que a trazem pra mim. Reparei que a mala que trouxera estava maior que a de costume. “Veio pra ficar”, pensei, mas resolvi não falar nada, pois as saudades são meio temperamentais. Gosto quando a Saudade vem, mas algo me diz que dessa vez será diferente. Nossa convivência está um pouco desgastada, tamanho o tempo que temos passado juntas nos últimos dois anos. Lembrar das pessoas e dos lugares era mais leve, mais fácil, menos qualquer-coisa-que-não-deixava-esse-vazio-sem-esperança e que nem nome tem. Não sei como serão nossos próximos dias. Não sei como vou fazer pra carregá-la com esse tamanho. Não sei sequer se a quero aqui em casa todo dia o dia todo. Só sei que a Saudade está aqui, enorme, pesada, pesando, fazendo-me recebê-la sozinha, senti-la sozinha e carregá-la sozinha, como se fosse normal uma pessoa, sozinha, ter tanta saudade assim pra carregar e viver junto. Bem-vinda novamente, Saudade. Não repare a bagunça, mas não se sinta tanto em casa a ponto de fazer desta a sua.